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O CURUPIRA
Ser fantástico que, segundo a crença popular, habita
as florestas e é o protetor das plantas e dos animais. Referido desde o séc.
XVI, o curupira é descrito como tendo a estatura de um menino, pele escura e os
pés às avessas, isto é, com os calcanhares para frente; suas pegadas enganam
os caçadores e seringueiros, que se perdem nas florestas. O curupira também
faz as pessoas se perderam imitando gritos humanos. Para não serem incomodados,
os seringueiros e caçadores, adaptando um costume indígena, fazem oferendas de
pinga e fumo.1
O Curupira e uma espécie de gênio da floresta. Parece-se com um
menino de cabelos vermelhos, mas tem o corpo peludo, dentes verdes e os seus pés
são virados: o calcanhar para a frente e os dedos para trás. É ele quem cuida
dos animais da floresta. Dizem que esses ruídos misteriosos que vêm da mata são
causados por ele. Tolera os caçadores que caçam para comer, mas não tem pena
dos caçadores maldosos, principalmente dos que matam filhotes. Quando vê um caçador
que mata por prazer, judia tanto dele, mas tanto, que o coitado, se não morre,
fica louco para sempre.
Para proteger os animais, ele usa mil artimanhas, procurando iludir o caçador:
gritos, assobios, gemidos. O caçador pensa que é um animal ou uma ave e vai
atrás do Curupira. Quando percebe, está perdido na floresta.
Ao se aproximar uma tempestade, o Curupira corre toda a floresta e vai batendo
nos troncos das árvores. Assim, ele vê se elas estão fortes para agüentar
a ventania. Se percebe que alguma árvore poderá ser derrubada pelo vento, ele
avisa a bicharada para não chegar perto dela.
Os índios contavam uma interessante história sobre o
Curupira.
Estava o Curupira andando pela
floresta, quando encontrou um índio caçador que dormia profundamente. O
Curupira estava com muita fome e cismou em comer o coração do homem. Assim,
fez com que ele acordasse. O caçador levou um susto, mas como ele era muito
controlado, fingiu que não estava com medo. O Curupira disse-lhe:
- Quero um pedaço de seu coração!
O Caçador, que era muito esperto, lembrando-se que havia atirado num macaco,
entregou ao Curupira um pedaço do coração do macaco. O Curupira provou,
gostou e quis comer tudo.
- Quero mais! Quero o resto! - pediu ele. O Caçador entregou-lhe o que havia
sobrado, mas, em troca, exigiu um pedaço do coração do Curupira.
- Fiz sua vontade, não fiz? Agora você deve dar-me em pagamento um pedaço de
seu coração, disse ele.
O Curupira não era muito esperto e acreditou que o Caçador havia arrancado o
próprio coração, sem ter sofrido nenhuma dor e sem haver morrido.
- Está certo, respondeu o Curupira, empreste-me sua faca.
O Caçador entregou-lhe a faca e afastou-se o mais que pôde, temendo levar uma
facada. O Curupira, porém, estava sendo sincero. Enterrou a faca no próprio
peito e tombou, sem vida. O Caçador não esperou mais, disparou pela floresta
com tal velocidade que deixaria para trás os bichos mais velozes...
Quando chegou à aldeia, estava com a língua de fora e prometeu a si mesmo não
voltar nunca mais à floresta. Pensou: "Desta escapei. Noutra é que não
caio"
Durante um ano, o índio não quis saber de entrar na mata. Quando lhe
perguntavam por que não saía mais da aldeia, ele se desculpava, dizendo estar
doente.
O Caçador tinha uma filha que era muito vaidosa. Como haveria uma festa dentro
de poucos dias, ela pediu ao pai um colar diferente de todos os que ela já
tinha visto.
O índio, pai dedicado, começou a pensar num modo de satisfazer o desejo da
filha. Lembrou-se, então, dos dentes verdes do Curupira. Daria um bonito colar,
sem dúvida.
Partiu para a floresta e procurou o lugar onde o gênio havia morrido. Depois de
algumas voltas, deu com o esqueleto meio encoberto pelo mato. Os dentes verdes
brilhavam ao sol, parecendo esmeraldas.
Conseguindo vencer o receio, apanhou o crânio do Curupira e começou a bater
com ele no tronco de uma árvore, para que se despedaçasse e soltasse os
dentes.
Imaginem a sua surpresa quando, de repente, viu o Curupira voltar à vida! Ali
estava ele, exatamente como antes, parecendo que nada havia acontecido!
Por sorte, o Curupira acreditou que o Caçador o ressuscitara de propósito e
ficou todo contente:
- Muito obrigado! Você devolveu-me a vida e não sei como agradecer-lhe!
O índio percebeu que estava salvo e respondeu que o Curupira não tinha nada
que agradecer, mas ele insistia em demonstrar sua gratidão. Pensou um pouco e
disse:
- Tome este arco e esta flecha. São mágicos. Basta que você olhe para a ave
ou animal que deseja caçar e atire. A flecha não errará o alvo. Nunca mais
lhe faltará caça. Mas, agora, ouça bem: jamais aponte para uma ave ou animal
que esteja em bando, pois você seria atacado e despedaçado pelos companheiros
dele. Entendeu?
O índio disse que sim e desde aquele momento não mais lhe faltou caça. Era só
atirar a flecha e zás! O bicho caía. Tornou-se o maior caçador de sua tribo.
Por onde passava, era olhado com respeito e admiração.
Um dia, ele estava caçando com outros companheiros que não tinham mais
palavras para elogiá-lo. O índio sentiu-se tão importante que, ao ver um
bando de pássaros que se aproximava, esqueceu-se da recomendação do Curupira
e atirou...
Matou somente um pássaro e, como o Curupira avisara, foi atacado pelo bando
enlouquecido pela perda do companheiro.
De seus amigos, não ficou um: dispararam pela floresta, deixando-o entregue à
própria sorte.
O pobre índio foi estraçalhado pelos pássaros. A cabeça estava num lugar, um
braço no outro, uma perna aqui, outra longe... O Curupira ficou com pena dele.
Arranjou cera e acendeu um fogo para derretê-la. Depois recolheu os pedaços
do Caçador e colou-os com a cera. O índio voltou à vida e levantou-se:
- Muito obrigado! Não sei como agradecer-lhe!
- Não tem o que agradecer, respondeu o Curupira, mas preste atenção. Esta foi
a primeira e ú1tima vez que pude salvá-lo! Não beba, nem coma nada que esteja
quente! Se o fizer, a cera se derreterá e você também!
Durante muito tempo, o índio levou uma vida normal. Ninguém sabia do
acontecido. Um dia, porém, sua mulher lhe serviu uma comida quente e apetitosa,
tão apetitosa que o índio nem se lembrou que a cera poderia derreter-se.
Engoliu a comida e pronto! Não só a cera se derreteu, mas também o próprio
índio.2
1. Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil -
Larousse Cultural - Nova Cultural - 1995
2. Texto extraído do livro Histórias
e Lendas do Brasil (adaptado do texto original de Gonçalves Ribeiro). - São
Paulo: APEL Editora, sem/data
Ilustrações de J. Lanzellotti
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